Darwinismo
Minha sobrinha de três anos disse que pediria um iPad pro Papai Noel. Para mim, trata-se de uma evolução daquele quadro magnético vermelho que você sacode pra apagar o desenho no final. Pode parecer exagero mas eu, um pouco mais velha, ficava maravilhada era com a sanduicheira elétrica funcionando em cima da pia.
Era o fim do sanduíche gelado com pão de forma grudando no céu da boca e, principalmente do queijo quente queimado de um lado só quando a mãe esquecia o tostex na boca do fogão. Era a modernidade ao meu alcance!
A desejada sanduicheira foi comprada na primeira viagem da família a Disney (outro sonho de classe média concretizado). Numa parada que fizemos em Miami, vimos a loja anunciar o aparelho por míseros 13 dólares. Muito embora ainda contássemos cruzeiros reais, o preço era bastante vantajoso e acabamos comprando sanduicheira de presente pra família inteira. Sorte que não fomos parados na alfândega.
De volta a São Paulo, felicidade era ter autonomia para fazer meu próprio sanduíche sem ter que pedir ajuda para mexer no fogão ou esperar uma eternidade até que o forninho derretesse o queijo prato devidamente. A única coisa a fazer era ligar na tomada e esperar a luz vermelha acender.
Se bem traduzidas pela minha mãe, as instruções eram claras: não untar a sanduicheira com manteiga nem usar água para a limpeza. Raspar o antiaderente com faca de metal, nem pensar! Melhor enxugar louça com o santo sudário do que riscar a sanduicheira. O que a Black & Decker não avisou no manual é que o antiaderente não funcionava.
A cada dupla de sanduíche, uma surpresa. Dar de cara com dois sanduíches inteiros e tostadinhos é como ganhar na loteria: nunca vi acontecer com ninguém. A não ser que você abdique do recheio, o resultado é o mesmo: o queijo vaza, o requeijão escorre pelas laterais, o pão gruda na parte de cima e quando você abre a sanduicheira, tem a certeza de que se trata de um outro prato. Se jogar um fio de azeite e decorar com uma folhinha de manjericão, vira um risoto. Risoto de misto quente.
Certa vez, quando nossos pais viajavam, eu e meu irmão resolvemos incrementar o requintado almoço usando quase meia bisnaga de catupiry em cada fatia de pão. Pareciam sonhos de padaria, mas veio o pesadelo. O catupiry transbordou, o presunto se perdeu e a mussarela grudou de tal forma que não vimos solução se não lavar a geringonça com a parte verde da esponja da pia. Ao contrário do que prevíamos, o resto da família ficou aliviada ao ver a sanduicheira inutilizável.
Desde os remotos anos não tenho contato com tal eletrodoméstico e de lá pra cá os canais de compra da televisão tentam me convencer de que as coisas mudaram e que nada mais gruda no antiaderente. Tanto que lançaram vários outros produtos similares (panelas elétricas, omeleteiras e máquinas de tortinhas) e as pessoas ainda a incluem em listas de casamento.
Meu trauma é tamanho que não estou disposta a tentar novamente. Inclusive acho que as apresentadoras contrariam as instruções e usam óleo para não dar vexame em público, mas também não descarto a possibilidade de que – tal como o quadro vermelho – as sanduicheiras tenham evoluído.
Gostaria de creditar o termo “risoto de misto quente” à minha amiga Manu.
Filed under: Uncategorized | Deixe um comentário
Sem respostas ainda para “Darwinismo”