Love will tear us apart

11nov11

Outro dia estava lendo o rótulo do hidratante pro cabelo, disposta a seguir as instruções de uso. Depois do shampoo e do condicionador, aplique nos cabelos ainda úmidos, garantindo que todos os fios estejam cobertos. Fiquei lá espalhando o creme com afinco e parei para me perguntar como iria prover a garantia de que todos os fios estavam cobertos. O máximo que eu poderia dizer é que me esforcei bastante. Garantia só vem de fábrica com eletroeletrônico, se tanto.

Imagino que a grande maioria das pessoas pensa em casar. Inclusive aquele tipo de homem chato que faz piada comparando aliança com algema no almoço da firma e aquele tipo de mulher que acha que emancipação feminina e casamento se anulam. Eu penso também. Não com a mesma freqüência das contemporâneas da minha avó, bordando o enxoval aos quinze anos, mas penso.

Acho que isso é sinal de nada, só de que a vida é mais legal quando é dividida. O meu problema nem é só a falta do candidato. Essas coisas acontecem quando a gente menos espera (dizem).  O problema é com os votos que se faz no altar, ali na frente do padre ou do juiz e de mais dezenas de conhecidos.

Eu juro que quando eu for casar com alguém eu não vou reclamar da toalha molhada em cima da cama. Juro que vou tentar não dormir com dois mil cobertores ou reclamar do barulho do ronco. Juro que não vou ligar se ele ganhar menos, vou amá-lo na saúde e na doença – torcendo pra que ele tenha saúde de um touro como eu. Posso jurar que além da alegria, vou amá-lo na tristeza também (mesmo que a tristeza seja, sei lá, por causa do campeonato brasileiro).

Antes das competições de handball e queimada no colégio, a gente jurava – pela honra do desporto –  ser fiel, honesto e competitivo. E já aviso que eu compito. Pela fatia do bolo com o morango em cima, pela autoria da piada, pela descoberta daquela música de que todo mundo gostou. Juro que sou fiel até o último fio de cabelo. Sou fiel até à marca de shampoo que me pede garantias de que cobri todos os fios!

É no final que a coisa emperra. Eu juro, aceito, cedo e compreendo, mas não me peça pra ser “todos os dias de nossas vidas” e nem “até que a morte nos separe”. Como é que eu vou pedir pra alguém me jurar que vai me amar pelo resto da vida dele? Eu não posso, me desculpem.

“Todos os dias de nossas vidas”? Todinhos? Até que a morte nos separe?  Eu vou te amar até que a gente não seja mais feliz nem na doença nem na saúde. Eu te juro ser fiel e te respeitar pra sempre.  Pra sempre até a gente não conseguir mais. Até que a gente perceba que é melhor ir cada um prum canto.

Eu quero que me jure que vai ficar comigo enquanto estiver feliz. Feliz por acordar do meu lado, por dormir do meu lado e feliz até ao me ouvir cantando alto no carro quando a gente viaja. Quando não estiver mais (e aí a lista de motivos é extensa, eu sei), peço pra ser a primeira a saber. E talvez eu fique puta da vida, perca o respeito e diga ainda mais palavrões do que me é de hábito. Talvez eu faça isso, talvez eu concorde e talvez até quem queira ir embora antes seja eu.

Pra sempre é muito tempo, a gente nem sabe quanto. Inclusive, se eu morrer, acho bom você me amar por mais um tempinho antes de jurar todas essas coisas pra outra. Espere o defunto esfriar, pelo menos. O que eu quero é que você me ame, me respeite, me jure, me coma, me ouça até você não querer mais. E quero também que você ria das minhas piadas, que me faça rir, mas não me corrija dizendo que não posso começar o período da oração com pronome. Eu juro que faço o mesmo. Até que o amor nos separe.



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