Vai passar

08set11

Tenho uma sugestão ao IBGE, Datafolha, Ibope ou Vox Populi. Em vez de pesquisarem quanto dorme, em média, a população de Santa Rita do Passaquatro ou quantos pãezinhos com manteiga ingerem semanalmente os trabalhadores da região da Berrini, deveriam nos dizer quanto tempo dura as tendências suicidas do portador de um coração partido. Partido, não. Moído feito a carne do molho à bolonhesa da sua avó.

“É difícil saber”, você responde. E eu treplico: o homem foi à Lua! Não deve ser difícil realizar estudos sobre isso. Cientistas pesquisam os benefícios da música clássica na produção de leite das vacas, a duração do orgasmo de um porco. Podem muito bem estudar cada detalhe de um término (ou pior, do não-começo) de um relacionamento e apresentar uma estimativa da duração dessa tristeza toda.

Todo mundo sabe que passa. Eu, você e até o pobre sofredor sabemos. Mas quando? Estamos falando de dias, meses ou de um quarto de século? Sabemos também que em situações como essa, o tempo vai passa com a velocidade média de uma lesma sonolenta – informação essa que também já foi verificada, com certeza. Mas ainda assim: em média, quanto tempo?

E quanto ao gênero? Homens saem da vala com mais facilidade? Quando ainda na vala, quanto uísque bebem? O consumo de chocolate entre as mulheres deve triplicar, estimo. Não podemos nos esquecer da classe social. Será que  clientes da Daslu passam meses na terapia à base de tarja preta depois do fora? E na periferia? Bastaria um bom porre de Contini ao som de Waldick Soriano? A propósito, ouvir “I Will Survive” na versão do Cake em loop aumenta as chances de recuperação em qual porcentagem?

Amores não consumados causam mais sofrimento? O namorinho de dois meses traz menos dor do que o casamento de 30 anos ou do que o iminente noivado? Sobre os graus de sanidade da vítima do coração estraçalhado: há os que criam muitas expectativas, os razoavelmente coerentes e os maníaco-depressivos, dentre muitos outros. Quem será  que supera mais rápido?

Como é que eu vou dizer pra alguém que “vai passar” se eu não sei precisar quando? Fico lá tentando consolar o amigo, maldizendo o autor do fora, bebendo e parafraseando o Léo Jaime – “a vida não presta, ela não gosta de mim” – e fica por isso mesmo? Deixo o diabo em prantos com um “vai passar” assim leviano?

É preciso de dados factíveis; até porque a descrença do rejeitado na própria recuperação consegue atingir altos patamares. Os certos do fim do mundo pelo menos deram uma pista: 2012. Será que meu amigo vai sair dessa antes de irmos todos pelos ares? Precisamos de complexas planilhas no Excel, análise combinatória, gráficos de linha, barra e de pizza, logaritmos…

Esse tipo de informação é valiosa e a pesquisa, demorada. Porém, enquanto o coração partido, pisoteado ou moído em ponta de faca tenta voltar à forma original – sair do coma; tudo o que a gente pode fazer é deixá-lo de lado e fazer a cabeça pensar nesses números todos. A verdade é que só passa quando a gente quiser que passe.



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