Plano de carreira

03ago11

Não é toda convenção social que me chateia. Em elevadores ou no cafezinho do trabalho, falo sobre o tempo maluco como poucas – só deixei de citar a previsão do tempo porque gostava de ouvir o Narciso Vernizzi e ele morreu há anos – e sou capaz de discorrer horas sobre signos e ascendente com manicures ou outros desconhecidos sem nem conseguir entender como é que as pessoas levam astrologia a sério. Viver em sociedade tem disso e eu não sou de ir contra.

O que me desgasta mesmo é encontrar conhecidos depois de muito tempo. Eles fingem que querem saber de mim e eu finjo que estou à vontade em dizer. Faz dez anos que não vejo o camarada e, de uma hora pra outra, preciso contar da minha vida. Na ausência de um trailer ou de uma orelha de livro, que seja, parto do princípio de que é preciso priorizar a vida profissional – afinal, quem é que iria querer saber se estou vivendo à base de antidepressivos ou se torci o tornozelo na rua?

A pergunta é quase sempre a mesma: e aí, o que tem feito? Hmmm ultimamente, muita merda. E você?

É claro que essa antipatia vem de uma certa instisfação com a minha vida atualmente, mas resumir tudo é muito complicado: “olha, eu saí da escola, fiz cursinho, 1 semestre de jornalismo, tranquei, me formei em gastronomia mas só fiz estágios na área e trabalho há quase quatro anos na área Comercial de uma empresa de TI– nada a ver, né, eu sei. Aí, tem mais ou menos um ano que eu percebi que realmente não gosto do meu emprego e resolvi voltar pro jornalismo. Inclusive, se souber de algum estágio bacana, me avisa que eu to procurando…”.

Coincidência encontrar sempre as pessoas com as vidas mais simples: terminaram a faculdade de administração em 2006, trabalham na Deloitte (ou alguma outra multinacional), fazem natação à noite, aos finais de semana vão tomar vodka com energético em alguma balada dos irmãos Diniz, namoram há 12 anos com a mesma pessoa e estão planejando uma ida à Europa (o álbum de fotos no Facebook vai chamar Eurotrip, aposto).

Não tenho inveja deles, podem acreditar. Se essa simplicidade toda tivesse me trazido alguma satisfação na vida, não estaria buscando mudanças só para ser contraventora. E isso só me prova que é mais difícil explicar essas reviravoltas aos outros do que, de fato, trancar faculdade, viver sem um namoro que dure mais de uma década ou não saber direito como fazer planilhas no Excel.

Qualquer dia crio coragem de contar a história que inventei para facilitar o dia-a-dia. Terminei relações internacionais no Mackenzie, trabalho na Vivo, tenho um blackberry, estou noiva do Evandro há 2 anos, vamos casar assim que eu terminar o MBA na GV e acabei de voltar de Buenos Aires (essa parte até que é verdade).



2 Responses to “Plano de carreira”

  1. 1 Leandro Raposo

    Adorei mais uma vez… me identifiquei com a parte do blackberry e dos signos… tem feito frio ultimamente né?! hahaha gostei mesmo! Parabéns

  2. 2 Silvia Piccolo

    obrigada, leandro. de verdade :)


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.