A Tropicália
A não ser pela voz esganiçada, nunca imaginei que seria possível me identificar com a Gal Costa. Penso nela descalça, suada e sem sutiã cantando que seu coração amanheceu pegando fogo (fogo, fogo!) enquanto tenta domar aquela cabeleira toda. Depois lembro de “Baby”. Sei que a autoria é do Caetano, mas a música vai ser sempre da Gal.
Achava a letra sem sentido, via até um certo pedantismo nas rimas tão infantis e ao mesmo tempo endeusadas por todos os fãs – se pagodeiro rima amor-dor-calor, é cafona; piscina-Carolina-margarina é lindo. Mas as coisas mudam tanto que eu mal sabia que a dona daquele cabelo medonho seria capaz de trazer sentido a quase tudo em que estive pensando ultimamente.
Na piscina da casa da praia que você tinha que ter ido conhecer. Nas contas para ver se compensa abastecer o carro com gasolina ou etanol, no trânsito que eu vou pegar para sair daqui (será mesmo que vivemos na melhor cidade da América do Sul?). Na torradeira nova e no pão quentinho com manteiga; na Carolina, que não vejo há meses.
A gente precisava voltar àquela lanchonete e talvez você precise dar outra chance ao sorvete de macadâmia de que eu tanto falei. Precisava conhecer meus amigos, os protagonistas de todas aquelas histórias que eu contava quase que sem intervalo.
Baby, eu nunca tive a mínima intenção de te chamar de baby, fica tranquilo. Você precisava me mostrar mais as canções do Roberto e de muito mais gente. De perto, bem de perto. Quanto tempo!
Você precisava saber de mim. Dos meus planos ou da falta deles. Que talvez não esteja tudo azul. Do que eu sei e o que eu não sei mais. Nem tudo vai em paz, disso eu sei. Na falta de uma camisa, tenho só um blog e espero que você não leia. Há quanto tempo eu sei que é assim. Quanto tempo!
Obs: não precisa aprender inglês.
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