Darwinismo

09dez11

Minha sobrinha de três anos disse que pediria um iPad pro Papai Noel. Para mim, trata-se de uma evolução daquele quadro magnético vermelho que você sacode pra apagar o desenho no final. Pode parecer exagero mas eu, um pouco mais velha, ficava maravilhada era com a sanduicheira elétrica funcionando em cima da pia.

Era o fim do sanduíche gelado com pão de forma grudando no céu da boca e, principalmente do queijo quente queimado de um lado só quando a mãe esquecia o tostex na boca do fogão. Era a modernidade ao meu alcance!

A desejada sanduicheira foi comprada na primeira viagem da família a Disney (outro sonho de classe média concretizado). Numa parada que fizemos em Miami, vimos a loja anunciar o aparelho por míseros 13 dólares. Muito embora ainda contássemos cruzeiros reais, o preço era bastante vantajoso e acabamos comprando sanduicheira de presente pra família inteira. Sorte que não fomos parados na alfândega.

De volta a São Paulo, felicidade era ter autonomia para fazer meu próprio sanduíche sem ter que pedir ajuda para mexer no fogão ou esperar uma eternidade até que o forninho derretesse o queijo prato devidamente. A única coisa a fazer era ligar na tomada e esperar a luz vermelha acender.

Se bem traduzidas pela minha mãe, as instruções eram claras: não untar a sanduicheira com manteiga nem usar água para a limpeza. Raspar o antiaderente com faca de metal, nem pensar! Melhor enxugar louça com o santo sudário do que riscar a sanduicheira. O que a Black & Decker não avisou no manual é que o antiaderente não funcionava.

A cada dupla de sanduíche, uma surpresa. Dar de cara com dois sanduíches inteiros e tostadinhos é como ganhar na loteria: nunca vi acontecer com ninguém. A não ser que você abdique do recheio, o resultado é o mesmo: o queijo vaza, o requeijão escorre pelas laterais, o pão gruda na parte de cima e quando você abre a sanduicheira, tem a certeza de que se trata de um outro prato. Se jogar um fio de azeite e decorar com uma folhinha de manjericão, vira um risoto. Risoto de misto quente.

Certa vez, quando nossos pais viajavam, eu e meu irmão resolvemos incrementar o requintado almoço usando quase meia bisnaga de catupiry em cada fatia de pão. Pareciam sonhos de padaria, mas veio o pesadelo. O catupiry transbordou, o presunto se perdeu e a mussarela grudou de tal forma que não vimos solução se não lavar a geringonça com a parte verde da esponja da pia. Ao contrário do que prevíamos, o resto da família ficou aliviada ao ver a sanduicheira inutilizável.

Desde os remotos anos não tenho contato com tal eletrodoméstico e de lá pra cá os canais de compra da televisão tentam me convencer de que as coisas mudaram e que nada mais gruda no antiaderente. Tanto que lançaram vários outros produtos similares (panelas elétricas, omeleteiras e máquinas de tortinhas) e as pessoas ainda a incluem em listas de casamento.

Meu trauma é tamanho que não estou disposta a tentar novamente. Inclusive acho que as apresentadoras contrariam as instruções e usam óleo para não dar vexame em público, mas também não descarto a possibilidade de que – tal como o quadro vermelho – as sanduicheiras tenham evoluído.

 

Gostaria de creditar o termo “risoto de misto quente” à minha amiga Manu.


Outro dia estava lendo o rótulo do hidratante pro cabelo, disposta a seguir as instruções de uso. Depois do shampoo e do condicionador, aplique nos cabelos ainda úmidos, garantindo que todos os fios estejam cobertos. Fiquei lá espalhando o creme com afinco e parei para me perguntar como iria prover a garantia de que todos os fios estavam cobertos. O máximo que eu poderia dizer é que me esforcei bastante. Garantia só vem de fábrica com eletroeletrônico, se tanto.

Imagino que a grande maioria das pessoas pensa em casar. Inclusive aquele tipo de homem chato que faz piada comparando aliança com algema no almoço da firma e aquele tipo de mulher que acha que emancipação feminina e casamento se anulam. Eu penso também. Não com a mesma freqüência das contemporâneas da minha avó, bordando o enxoval aos quinze anos, mas penso.

Acho que isso é sinal de nada, só de que a vida é mais legal quando é dividida. O meu problema nem é só a falta do candidato. Essas coisas acontecem quando a gente menos espera (dizem).  O problema é com os votos que se faz no altar, ali na frente do padre ou do juiz e de mais dezenas de conhecidos.

Eu juro que quando eu for casar com alguém eu não vou reclamar da toalha molhada em cima da cama. Juro que vou tentar não dormir com dois mil cobertores ou reclamar do barulho do ronco. Juro que não vou ligar se ele ganhar menos, vou amá-lo na saúde e na doença – torcendo pra que ele tenha saúde de um touro como eu. Posso jurar que além da alegria, vou amá-lo na tristeza também (mesmo que a tristeza seja, sei lá, por causa do campeonato brasileiro).

Antes das competições de handball e queimada no colégio, a gente jurava – pela honra do desporto –  ser fiel, honesto e competitivo. E já aviso que eu compito. Pela fatia do bolo com o morango em cima, pela autoria da piada, pela descoberta daquela música de que todo mundo gostou. Juro que sou fiel até o último fio de cabelo. Sou fiel até à marca de shampoo que me pede garantias de que cobri todos os fios!

É no final que a coisa emperra. Eu juro, aceito, cedo e compreendo, mas não me peça pra ser “todos os dias de nossas vidas” e nem “até que a morte nos separe”. Como é que eu vou pedir pra alguém me jurar que vai me amar pelo resto da vida dele? Eu não posso, me desculpem.

“Todos os dias de nossas vidas”? Todinhos? Até que a morte nos separe?  Eu vou te amar até que a gente não seja mais feliz nem na doença nem na saúde. Eu te juro ser fiel e te respeitar pra sempre.  Pra sempre até a gente não conseguir mais. Até que a gente perceba que é melhor ir cada um prum canto.

Eu quero que me jure que vai ficar comigo enquanto estiver feliz. Feliz por acordar do meu lado, por dormir do meu lado e feliz até ao me ouvir cantando alto no carro quando a gente viaja. Quando não estiver mais (e aí a lista de motivos é extensa, eu sei), peço pra ser a primeira a saber. E talvez eu fique puta da vida, perca o respeito e diga ainda mais palavrões do que me é de hábito. Talvez eu faça isso, talvez eu concorde e talvez até quem queira ir embora antes seja eu.

Pra sempre é muito tempo, a gente nem sabe quanto. Inclusive, se eu morrer, acho bom você me amar por mais um tempinho antes de jurar todas essas coisas pra outra. Espere o defunto esfriar, pelo menos. O que eu quero é que você me ame, me respeite, me jure, me coma, me ouça até você não querer mais. E quero também que você ria das minhas piadas, que me faça rir, mas não me corrija dizendo que não posso começar o período da oração com pronome. Eu juro que faço o mesmo. Até que o amor nos separe.


Meu cãozinho branco da montanha,

Não parece que foi ontem. Parece (e faz) quase uma eternidade que fomos buscar você, ainda sem nome e em formato de mini bola de pêlos, mas às vezes ainda te procuro para dar a pontinha do tomate quando estou cozinhando.

Pensei que você bateria o Mike (a samambaia) no quesito longevidade, principalmente porque nesses 16 anos você nos fez pensar que enterraria a humanidade: a vez que ficou presa embaixo da geladeira e ninguém te encontrava, o nascimento dos filhotes que quase te matou, uma lista de cânceres de fazer inveja ao José Alencar.

As pessoas do prédio perguntaram de você, Dr. Edward (aquele crápula) mandou um e-mail lindo, a família e os amigos nos consolaram e a Bebel teve que se conformar em brincar com a sua réplica de pelúcia, o Bianco (pouco original, eu sei). Eu passei a abraçar qualquer cachorro que vejo na rua e às vezes “empresto” a Oito para sentir menos a sua falta, só que não adianta muito.

Com a reforma, sua poltrona preferida foi embora e não temos mais as meias velhas espalhadas pela sala – o que é ótimo – mas a casa continua precisando de um cachorro. Acontece que sabemos que não vai haver outra Bianca.

Ao contrário do que diz o título do filme, nem todos os cães merecem o céu. Você, sim. Inclusive me pego cogitando a existência de um céu de cachorros e te imagino sentadinha na grama, comendo suas uvas sem caroço, mini cenouras, tomates e latas infindáveis de atum.

Em vez da paz mundial, além de ganhar na megasena, meu desejo é de que todas as crianças do mundo tenham um cachorro tão legal como você foi.

Um beijo na ponta do seu focinho úmido.


Vai passar

08set11

Tenho uma sugestão ao IBGE, Datafolha, Ibope ou Vox Populi. Em vez de pesquisarem quanto dorme, em média, a população de Santa Rita do Passaquatro ou quantos pãezinhos com manteiga ingerem semanalmente os trabalhadores da região da Berrini, deveriam nos dizer quanto tempo dura as tendências suicidas do portador de um coração partido. Partido, não. Moído feito a carne do molho à bolonhesa da sua avó.

“É difícil saber”, você responde. E eu treplico: o homem foi à Lua! Não deve ser difícil realizar estudos sobre isso. Cientistas pesquisam os benefícios da música clássica na produção de leite das vacas, a duração do orgasmo de um porco. Podem muito bem estudar cada detalhe de um término (ou pior, do não-começo) de um relacionamento e apresentar uma estimativa da duração dessa tristeza toda.

Todo mundo sabe que passa. Eu, você e até o pobre sofredor sabemos. Mas quando? Estamos falando de dias, meses ou de um quarto de século? Sabemos também que em situações como essa, o tempo vai passa com a velocidade média de uma lesma sonolenta – informação essa que também já foi verificada, com certeza. Mas ainda assim: em média, quanto tempo?

E quanto ao gênero? Homens saem da vala com mais facilidade? Quando ainda na vala, quanto uísque bebem? O consumo de chocolate entre as mulheres deve triplicar, estimo. Não podemos nos esquecer da classe social. Será que  clientes da Daslu passam meses na terapia à base de tarja preta depois do fora? E na periferia? Bastaria um bom porre de Contini ao som de Waldick Soriano? A propósito, ouvir “I Will Survive” na versão do Cake em loop aumenta as chances de recuperação em qual porcentagem?

Amores não consumados causam mais sofrimento? O namorinho de dois meses traz menos dor do que o casamento de 30 anos ou do que o iminente noivado? Sobre os graus de sanidade da vítima do coração estraçalhado: há os que criam muitas expectativas, os razoavelmente coerentes e os maníaco-depressivos, dentre muitos outros. Quem será  que supera mais rápido?

Como é que eu vou dizer pra alguém que “vai passar” se eu não sei precisar quando? Fico lá tentando consolar o amigo, maldizendo o autor do fora, bebendo e parafraseando o Léo Jaime – “a vida não presta, ela não gosta de mim” – e fica por isso mesmo? Deixo o diabo em prantos com um “vai passar” assim leviano?

É preciso de dados factíveis; até porque a descrença do rejeitado na própria recuperação consegue atingir altos patamares. Os certos do fim do mundo pelo menos deram uma pista: 2012. Será que meu amigo vai sair dessa antes de irmos todos pelos ares? Precisamos de complexas planilhas no Excel, análise combinatória, gráficos de linha, barra e de pizza, logaritmos…

Esse tipo de informação é valiosa e a pesquisa, demorada. Porém, enquanto o coração partido, pisoteado ou moído em ponta de faca tenta voltar à forma original – sair do coma; tudo o que a gente pode fazer é deixá-lo de lado e fazer a cabeça pensar nesses números todos. A verdade é que só passa quando a gente quiser que passe.


Guia prático

10ago11

Estimo (ou melhor, chuto) que 95% dos termos de busca que vêm parar neste blog dizem respeito a vômito, bebedeira e, principalmente, à cura dela. Culpa deste texto, baseado em fatos reais. Se tivesse alguma capacidade ou paciência, faria o cálculo correto, mas como não é o caso, seguimos o jogo assim mesmo.

Muito embora eu não acredite ter tamanha experiência no assunto, devo estar melhor do que os tantos que – no desespero, imagino – resolvem apelar para o Google em busca da cura do porre. Ou melhor, da ressaca. Da bebedeira propriamente dita, ninguém quer melhorar; por isso o final é tão trágico.

Em primeiro lugar, meu lado politicamente correto (?) me diz para alertar que auto-medicação é um hábito perigoso – consulte sempre seu médico de confiança (ou o do convênio, mesmo). Ainda: se você não quer ter ressaca, não beba demais. Na hora do desespero não vale jurar que nunca mais colocará uma gota de álcool na boca, dizer que passou mal porque não tinha jantado ou culpar a mistura de vodka, cerveja e uísque. Porém como não sou de defender nenhum tipo de abstinência, é só ter um pouco de bom-senso – coisa que a idade costuma trazer.

Para você que, já de pileque, arrependeu-se ou começou a pressentir o pior a caminho, as notícias não são animadoras. Beba água e vá para a cama, pois não há mais nada a fazer. Talvez o destino lhe seja bondoso. Talvez você faça uma visita ao turbo drop do Playcenter sem nem sair de casa. Agora, se você queimou a largada e passou mal antes de dançarem a valsa na formatura, faça uma travesseiro com o paletó de alguém e vá dormir na mesa até alguém te guinchar na hora de ir embora.

O problema é o dia seguinte, todo mundo sabe. Devo  dizer que apesar de todas as nítidas evidências  e sensações, a ressaca não vai te matar. Sei que houve casos extremos, bateristas de bandas famosas que morreram afogados no próprio vômito e mais um monte de desgraça, mas esse não deve ser o caso. Inclusive porque você conseguiu ligar um computador, não é mesmo?

Nas dicas do Jornal Hoje antes do Carnaval sempre mandam intercalar a cerveja com um copo d’água, mas estou para conhecer algum cidadão que cumpra à risca. Então, se lembrar, beba água antes de dormir e, óbvio, muita água quando acordar com a boca seca feito o deserto do Atacama. Pode substituir por coca-cola, Gatorade e até soro caseiro, se você lembrar da receita que o Didi Mocó ensinava na TV.

Um sintoma (pra não dizer castigo) bastante comum do exagero na bebida é a dor de cabeça e todo cidadão que se preze tem uma preferência para remédio. Neosaldina, Tylenol, Aspirina, Novalgina, Advil… fique à vontade. Só não confio no Doril porque apesar de nunca ter tomado, acho o slogan infame

O Dramin – também campeão nas buscas – é um santo remédio. Além de tratar do enjôo do pau d’água, dá um sono absurdo. Tome um pela manhã e quando acordar, o Faustão já estará anunciando as Video Cassetadas. Por razões óbvias, não é recomendado o uso caso você esteja no trabalho.

Plasil é uma outra opção, mais indicada nos casos de vômito extremo. Em situações mais brandas, se você não tiver medo da aparência radioativa do Epocler, um tubinho ajuda bastante. Além disso, uma boa dose (ai) de otimismo é importante.

Antes que a ressaca chegue, deixo algumas dicas: não fique abraçando as pessoas ao seu redor, não conte intimidades a desconhecidos na fila do banheiro, não mande SMS inapropriado no meio da madrugada, não perca a comanda do bar e, principalmente, não pegue o carro. E se, por algum milagre, o resultado do sms inoportuno for satisfatório, use camisinha. E seja feliz!


Você não soube? Pois é. Antes de morrermos tostados pela ausência da camada de ozônio, de nos afogarmos com o derretimento das geleiras ou de a água atingir o mesmo valor do petróleo , o mundo apodreceu – quem diria? Pelo menos é o que eu concluo vendo a quantidade de produtos que prometem me livrar de germes, bactérias, odores e outros microorganismos letais.

Décadas atrás, pessoal não escovava o dente e ficava banguela. Óbvio que Colgates, Listerines e Sensodynes são indispensáveis, bem como toda forma de higiene. Vejam bem, este não é um manifesto em prol da imundice. O problema é que as pessoas parecem não saber mais viver sem o potinho de álcool gel na bolsa e saem para lavar as mãos no menor contato com os outros como se fossem animais peçonhentos. Na infância, éramos quase todos adeptos do Vinólia e não ouvi falar de quem houvesse morrido porque não lavou a mão direito.

Não é o que me diz o anúncio de sabonete Lifebuoy, em que a mãe do menino é chamada na escola pois ele está com dor de barriga. O médico faz uma ceninha, diz que são os germes e recomenda o tal sabonete, que mata 99% deles. Acho até, pelo peso do menino, que ele comeu 12 coxinhas no recreio e teve um problema gástrico, e não que tenha passado mal por não ter lavado as mãos devidamente.

Mas não. De repente, tudo ficou imundo, infectado, cheio de bactérias: roupas, pessoas, alimentos… Cachorros, que costumavam ser nossos amigos, são meios de transporte de cóleras e pestes com sua saliva e pulgas. No caso dos alimentos, tudo é mal-lavado e putrefato. O tal do dogão na rua é quase uma sentença de morte. Desorizadores de ambiente sugerem que minha casa fede a xorume e que necessita que um spray automático seja acionado a cada 15 minutos para perfumar o ambiente.

O desodorante parece garantir proteção 48 horas contra os maus odores. Ótimo saber que podemos confiar na Garnier, mas se me proteger por 10 horas já está bom. Depois deste período, acho que é recomendável tomar o bom e velho banho, não é? E mais: se eu tomo 3 banhos por dia com Protex, tenho a casa perfumada com Glade e lavo minhas roupas com Vanish bactericida, eu deveria ficar limpa por uns três dias. Mas, como disse, acho que o mundo apodreceu.


Não é toda convenção social que me chateia. Em elevadores ou no cafezinho do trabalho, falo sobre o tempo maluco como poucas – só deixei de citar a previsão do tempo porque gostava de ouvir o Narciso Vernizzi e ele morreu há anos – e sou capaz de discorrer horas sobre signos e ascendente com manicures ou outros desconhecidos sem nem conseguir entender como é que as pessoas levam astrologia a sério. Viver em sociedade tem disso e eu não sou de ir contra.

O que me desgasta mesmo é encontrar conhecidos depois de muito tempo. Eles fingem que querem saber de mim e eu finjo que estou à vontade em dizer. Faz dez anos que não vejo o camarada e, de uma hora pra outra, preciso contar da minha vida. Na ausência de um trailer ou de uma orelha de livro, que seja, parto do princípio de que é preciso priorizar a vida profissional – afinal, quem é que iria querer saber se estou vivendo à base de antidepressivos ou se torci o tornozelo na rua?

A pergunta é quase sempre a mesma: e aí, o que tem feito? Hmmm ultimamente, muita merda. E você?

É claro que essa antipatia vem de uma certa instisfação com a minha vida atualmente, mas resumir tudo é muito complicado: “olha, eu saí da escola, fiz cursinho, 1 semestre de jornalismo, tranquei, me formei em gastronomia mas só fiz estágios na área e trabalho há quase quatro anos na área Comercial de uma empresa de TI– nada a ver, né, eu sei. Aí, tem mais ou menos um ano que eu percebi que realmente não gosto do meu emprego e resolvi voltar pro jornalismo. Inclusive, se souber de algum estágio bacana, me avisa que eu to procurando…”.

Coincidência encontrar sempre as pessoas com as vidas mais simples: terminaram a faculdade de administração em 2006, trabalham na Deloitte (ou alguma outra multinacional), fazem natação à noite, aos finais de semana vão tomar vodka com energético em alguma balada dos irmãos Diniz, namoram há 12 anos com a mesma pessoa e estão planejando uma ida à Europa (o álbum de fotos no Facebook vai chamar Eurotrip, aposto).

Não tenho inveja deles, podem acreditar. Se essa simplicidade toda tivesse me trazido alguma satisfação na vida, não estaria buscando mudanças só para ser contraventora. E isso só me prova que é mais difícil explicar essas reviravoltas aos outros do que, de fato, trancar faculdade, viver sem um namoro que dure mais de uma década ou não saber direito como fazer planilhas no Excel.

Qualquer dia crio coragem de contar a história que inventei para facilitar o dia-a-dia. Terminei relações internacionais no Mackenzie, trabalho na Vivo, tenho um blackberry, estou noiva do Evandro há 2 anos, vamos casar assim que eu terminar o MBA na GV e acabei de voltar de Buenos Aires (essa parte até que é verdade).


A Tropicália

21jul11

A não ser pela voz esganiçada, nunca imaginei que seria possível me identificar com a Gal Costa. Penso nela descalça, suada e sem sutiã cantando que seu coração amanheceu pegando fogo (fogo, fogo!) enquanto tenta domar aquela cabeleira toda. Depois lembro de “Baby”. Sei que a autoria é do Caetano, mas a música vai ser sempre da Gal.

Achava a letra sem sentido, via até um certo pedantismo nas rimas tão infantis e ao mesmo tempo endeusadas por todos os fãs – se pagodeiro rima amor-dor-calor, é cafona; piscina-Carolina-margarina é lindo. Mas as coisas mudam tanto que eu mal sabia que a dona daquele cabelo medonho seria capaz de trazer sentido a quase tudo em que estive pensando ultimamente.

Na piscina da casa da praia que você tinha que ter ido conhecer. Nas contas para ver se compensa abastecer o carro com gasolina ou etanol, no trânsito que eu vou pegar para sair daqui (será mesmo que vivemos na melhor cidade da América do Sul?). Na torradeira nova e no pão quentinho com manteiga; na Carolina, que não vejo há meses.

A gente precisava voltar àquela lanchonete e talvez você precise dar outra chance ao sorvete de macadâmia de que eu tanto falei. Precisava conhecer meus amigos, os protagonistas de todas aquelas histórias que eu contava quase que sem intervalo.

Baby, eu nunca tive a mínima intenção de te chamar de baby, fica tranquilo. Você precisava me mostrar mais as canções do Roberto e de muito mais gente. De perto, bem de perto. Quanto tempo!

Você precisava saber de mim. Dos meus planos ou da falta deles. Que talvez não esteja tudo azul. Do que eu sei e o que eu não sei mais. Nem tudo vai em paz, disso eu sei. Na falta de uma camisa, tenho só um blog e espero que você não leia. Há quanto tempo eu sei que é assim. Quanto tempo!

Obs: não precisa aprender inglês.


Misturado aos malabaristas, vendedores de chicletes, rosas colombianas e baleias de plástico que cospem bolhas de sabão, nos faróis da Rua Estadas Unidos há um personagem incomum mesmo aos moradores de São Paulo: Ronaldo Sérgio Breves. Ou “o poeta dos Jardins”, como ele se apresenta.

Ronaldo é morador de rua há “muitos e muitos anos” e costuma se instalar na esquina da Estados Unidos com a Rua Veneza, nos Jardins, bairro nobre de São Paulo. Veste-se com calça cinza, camiseta promocional da Nike, meias brancas, sapato social preto e, às vezes, com paletó. A pele negra contrasta com os cabelos crespos e grisalhos, que cobre com um chapéu de lantejoulas cor-de-rosa, lembrando os de Chacrinha. Ele mesmo compra os adereços, mas logo corrige dizendo que pega com os funcionários de um buffet infantil perto dali.

Com caneta piloto preta (pois “as outras não prestam”), escreve sua obra em tampas de caixas de isopor – apesar de caras, são descartadas por restaurantes, e oferece-se para mostrar o lugar. As placas com suas rimas irreverentes ficam apoiadas nos postes das calçadas e ele cuida para mantê-las de pé quando o vento passa.

Ele vai arrumar marido tomando um côro sentido. Só pancadão de maridão e deixa ele pensar que está bom

Ronaldo tem 60 anos e quando chegou a São Paulo, de Itaberaba, na Bahia, era cuidado por uma senhora que morava num apartamento grande, no Largo do Arouche: Tereza Queiroz de Andrade. Foi coroinha da igreja da Consolação e estudou até a sétima série em colégio de freiras que já não existe mais, “virou estacionamento”.

A mãe, já falecida, também se chamava Tereza e nunca se mudou de Itaberaba. Com a irmã, Solange, deixou de falar há anos, depois de ela ter feito macumba para prejudicá-lo. A mãe perdeu a casa. Ele, muito dinheiro; mas não sabe dizer se foi este o motivo de ter ido morar nas ruas. Era bom aluno, todavia abandonou os estudos. Trabalhou como ajudante de marceneiro e continuou no ramo por mais de vinte anos.

Bela, não sei mais para onde vou mais (sic) você me encantou

O poeta nunca se casou formalmente. Teve duas filhas com mulheres diferentes e perdeu contato com todas, acha até que pode ter netas. “Acontece que elas casaram com uns vagabundos, sabe? Pessoal que mexe com droga. Não quero mais saber, não”.

Era um “negão bonito”, perdeu as contas de quantas namoradas já teve na vida. Eram muitas até outro dia, “daí apareceu isso aqui”, diz enquanto levanta a barra da calça para mostrar as manchas esbranquiçadas e feridas nas pernas e braços; mas não sabe a causa. Apesar do sorriso de canto de boca, como quem se gaba, repete várias vezes seu respeito pelas mulheres, “afinal, a gente nasceu de vocês”.

Ele muda o tom da voz quando volta a falar da irmã e pede desculpas antes de chamá-la de vagabunda e macumbeira. Agradece a deus por não ter perdido a fé e mostra os dois terços de madeira, sujos, enrolados nos punhos. “Eu rezo todo dia, mas Ele está aqui comigo quando estou com elas”, diz apontando para as pombas que pousam nos fios elétricos da rua. Levanta-se, vai até um saco plástico contendo dois sacos de milho para pipoca, com que alimenta as aves e acredita que sua conexão com deus é feita através delas.

Ronaldo já não se lembra de quantos livros já leu, hábito que tem desde o colégio. O preferido é a Bíblia Sagrada, que só deixou de ler diariamente após lhe roubarem o exemplar, junto com mais de três cadernos em que escrevia suas poesias. “Tem muita gente ruim no mundo”.

Com ar sério, olha novamente para as pombas e conta de quando esteve no umbral – “sabe o que é isso?” – e fica em silêncio. Depois da pausa breve, continua falando do purgatório. Acha que só conseguiu sair dali por causa da intervenção divina e que o diabo precisa ser vencido.

Crápula, vou ter que brincar de cobra cega ou me jogar do edifício pois ficar com uma só mulher vai ser difícil. É muita beleza em cima da nossa mesa com certeza

Com o pai, nunca teve contato. Era assaltante e não se dedicou aos filhos. Desaparecia por meses e depois voltava, à procura de dinheiro. “Ele nunca quis saber de mim, era outro vagabundo, sabe?”. Roubava carteiras e chegou a ser preso mais de uma vez. Há muito tempo, teve notícias de que estava morando em Minas Gerais.

O conformismo de Ronaldo desaparece quando ele conta do envolvimento com a então esposa do pai. “Ele tava preso, eu fui lá e comi ela”, fala, com o sorriso aberto que mostra a falta de alguns dentes.

Vou dar uma de bacana, vou mergulhar em Copacabana

Do gramado da calçada, onde fuma um cigarro, Ronaldo acena para um grupo de homens engravatados que passa. “Como vai, cafajeste?” e um responde, sorrindo: “fala, mestre!”. Explica que conhece todos eles, funcionários da corretora Coelho da Fonseca, que fica do outro lado da rua.

Durante a semana, almoça quase diariamente no escritório do resort Costão do Santinho, próximo dali. “As madames lá são bacanas, todas me tratam muito bem”. Sempre que pode, contribui com algum dinheiro para a caixinha da cozinheira do lugar.

Ele não especifica onde dorme todas as noites, mas só gosta de expor sua obra ali, na Estados Unidos. Aos finais de semana migra para a Rua Oscar Freire, em frente aos bares All Black e Radio Café, pois gosta da juventude e de se divertir. Sabe que o primeiro bar é especializado em cervejas importadas “para todos os gostos”; porém, seu negócio é mesmo a cachaça – como evidencia o hálito.

Sem aparentar saudosismo, lembra o tempo em que ainda havia o bonde na Rua Pamplona, quando as ruas dos jardins eram de paralelepípedo e a avenida Paulista era bem estreita, mal passavam carros. Apesar de saber que a vida era muito mais tranqüila, não prefere a São Paulo do passado: “as coisas precisam mudar”.

Quando vê passar uma viatura, conta que no mês passado a ”molecada (polícia) desceu o cacete”. Ficou duas semanas no Cadeião de Pinheiros e lá apanhou ainda mais. Faz questão de dizer que não é uma pessoa violenta e mostra a gravata com o desenho ator Bruce Lee. “Ele só dá porrada quando mexem com ele, senão fica na boa. E nem usa arma, só o corpo”. O que mais lamenta do episódio é a perda de mais cadernos, onde escrevia suas rimas.

Faz duras críticas ao Governo – como excesso na cobrança de impostos – e avisa que será candidato a presidente da República nas próximas eleições. Acha que há muita corrupção e maldade nos governantes e, citando o ex-presidente Lula, não crê que seja necessário cursar faculdade para liderar o Brasil. Enquanto não começa a preparação para a campanha eleitoral, diz que sua vontade é de divertir as pessoas e despede-se, sorrindo: “até logo, minha dama maravilhosa”.


Luau na praia

10mai11

Uma das desgraças que podem ocorrer a um ser humano por volta de seus 17 anos é se ver de férias com os pais e alguns amigos na praia, pouco dinheiro no bolso e nenhum meio de locomoção motorizado. Essa me parece ser a única explicação plausível para que alguém organize ou participe de um luau. Para mim, é claro. Experiências nem tão recentes me disseram o contrario: há, sim, quem goste de luau.

Como não tem carro nem idade para dirigir, o pobre jovem se vê num mato sem cachorro. Sorte que não está sozinho nessa, há dezenas de outros na mesma situação. Eles querem beber, fumar maconha, tentar pegar mulher (ou homem)… Não havendo outra saída, encontram com pouco esforço um camarada que diz saber tocar violão e pronto, a diversão noturna esta armada.

São raras as meninas que entendem o espírito da coisa. Uma vai de saia curta, a outra de salto e a terceira esquece da umidade do mar e só vai perceber que a escova no cabelo desandou quando chegar em casa. O mais lesadinho do grupo tenta atear fogo em galhos molhados e acaba estragando o isqueiro. A grande maioria restante fica em volta da garrafa de Soda Limonada quente preenchida com vodka Tchaikovsky também quente, mas ninguém se incomoda em entornar a mistura explosiva pelo gargalo.

A areia molhada nos fundilhos não parece atrapalhar o aquecimento do companheiro do violão claramente desafinado. Ele tenta tocar o Brasileirinho e todos acham que as cordas estão estourando. Não tinha medo o tal João de Santo Cristo era o que todos diziam quando ele se perdeu… Não preciso nem falar que depois das goladas do drink, todo mundo se perdeu na letra da famigerada (pra não dizer interminável) canção.

Algum menino de apelido esquisito (Planc, Meleca, Lombriga…) acaba de assumir o posto de Zé Pequeno da turma e vai preparando o beck,  que acaba parecido com um bombom Sonho de Valsa. Mesmo assim, pra chamar a atenção do mulheril, um e outro discorrem sobre a importância de Jah nessa Era. Bob Marley e Gilberto Gil: tudo, tudo, tudo vai dar pé… no woman, no cry…

Meia dúzia levantou pra dançar forró, mesmo ouvindo “Tears in Heaven”, do Eric Clapton; é o álcool batendo na cabeca do pessoal. Pelo mesmo motivo o gordinho suado tenta (em vão, claro) agarrar qualquer espécie do sexo feminino que encontra pela frente; a baixinha de nariz esquisito liga pra melhor amiga que ficou em SP se lamentando por algum amor mal-resolvido, a que estava de saia encarna a Sharon Stone caiçara – e nem liga – o maconheiro declara que viu os sete anões andando pelas redondezas e sai em busca da Branca de Neve.

Apesar de parecer concentrado em sua performance, o rapazinho do violão não se esquece de beber e dar suas tragadas também. Logo ele, que sóbrio não servia pra tocar nem em quermesse de interior, resolve desafiar a si mesmo (e a paciência dos outros) tocando “Patience”, com direito aos assovios e a mexida de cabeça do Axl Rose. Quem passa por ali não sabe se ele está recebendo um espírito ou falando javanês, mas a platéia incentiva batendo palmas desencontradas.

Já passam das quatro horas da manha. Contudo, o luau só se dá por encerrado quando tem dois vomitando, um dormindo, pelo menos uma mulher chorando e um bem mais novo com medo do pito que vai levar quando chegar em casa. A caravana segue a pé rumando as casas, já combinando o que farão no dia seguinte. Antes de mais nada, atacar as sobras do churrasco pra matar a fome.




Blog Stats

  • 4,137 hits
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.